sexta-feira, janeiro 20, 2006

Goldfrapp


São poucos os casos de estreia tão prometedores como o que aconteceu no ano 2000 com o CD Felt Mountain, dos Goldfrapp (Alicia Goldfrapp e Will Gregory). A música, como que soprada por uma brisa, que nos embalava e deleitava, era tão extraordinária que o facto de ser uma estreia augurava, no futuro,grandes momentos de prazer.
Foram precisos quase três anos para aferir o vaticínio, altura em que foi publicado Black Cherry. Infelizmente o prognóstico não se confirmou. Do fulgor inicial pouco ou nada ficou, todo o enlevo foi substituído por um tecno-pop de gosto duvidoso. No ano passado, a saída de Supernature só veio confirmar que o primeiro trabalho foi mesmo singular, sem qualquer continuidade. O brilhantismo primitivo foi efémero.
O trabalho iniciou-se pela cúpula e esboroou-se.

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Almeida

Já há muito tempo que não visitava esta bonita vila e impressionante praça de guerra fronteiriça. O conjunto da fortaleza, de forma hexagonal, com 2500 m de perímetro, assemelhando-se a uma estrela de 12 pontas, é, sem dúvida, uma das mais belas jóias da arquitectura militar abaluartada do país.



A actual estrutura remonta ao séc. XVII, como resultado da Guerra de Restauração da independência.
A sua existência foi algo atribulada. O momento de assédio que mais marcou a vila foi quando esta, cercada por tropas francesas, sob o comando do general Massena (Agosto de 1810), foi atingida pelo fogo da artilharia inimiga, que fez explodir o paiol de pólvora, matando e ferindo mais de 500 pessoas. As marcas ainda são visíveis, como podem ver na foto seguinte:



A vila e a sua fortaleza lá continuam, bem conservadas. Todavia, senti um pouco o que já descrevi na minha visita a Castelo de Vide, no ano anterior. Pasmo ver uma terra com tamanhas potencialidades turísticas tão desaproveitada e com tão pouco dinamismo e investimento no seu património. Por duas vezes que a visitei, em dias distintos, acabei por inevitavelmente parar num dos poucos (senão o único) bar aberto. Este, estava repleto de estudantes que, em período de férias, não tinham outro poiso para conviver.
O magnífico conjunto arquitectónico vale bem a visita, mas o posto de turismo local nem sequer folhetos da vila tinha. É certo que podiam estar momentaneamente esgotados, mas tornou-se caricato, pois deram-me folhetos de muitas aldeias e vilas das redondezas, menos da que estava a visitar!?

A sensação é de desleixo e desinvestimento. Parece que a inércia está a deixar a pequena localidade envelhecer como os seus canhões. Triste sorte para uma maravilhosa povoação que, com outra vontade mais enérgica, poderia candidatar-se a património mundial.

sexta-feira, novembro 25, 2005

XADREZ: As máquinas jogam melhor que os homens

Já não há forma de contornar a questão, os novos programas de xadrez, aliados aos mais modernos computadores, já superam os humanos!O recente resultado de Bilbao, em que 3 reputados GM perderam pelo score de 8:4, foi mais uma acha para esta fogueira em que é iniludível a grande desvantagem dos humanos contra as máquinas.Nada que não fosse previsível e até nem podemos encarar a situação como dramática... Já há muito que sabíamos que não podíamos rivalizar com os computadores no cálculo bruto. Todavia, sobrava ainda uma ideia, algo romântica, de que o xadrez exigia, para além do cálculo, muita imaginação e intuição e, como tal, estas faculdades dificilmente poderiam ser transpostas para algoritmos, o que se traduziria numa vantagem para o ser humano a muito longo prazo.Temos de dar o mito como acabado.
Não é trágico, apenas temos que nos habituar à ideia!

domingo, novembro 13, 2005

Míron

Dizia-se, na Antiguidade, sobre o bezerro que Míron esculpiu na Acrópole, que era tão realista que as vacas mugiam ao vê-lo.
Infelizmente, nenhuma das suas obras originais chegou até aos nossos dias. Todavia, a sua popularidade permitiu que os seus trabalhos fossem copiados e possamos ter uma ideia da qualidade da obra pelas várias réplicas do seu trabalho mais célebre - o Discóbolo.
Já muito foi dito acerca desta escultura, especialmente sobre a forma como Míron conseguiu captar o movimento e a tensão do atleta. Contudo, não nos podemos esquecer que estamos apenas a contemplar uma cópia, feita para ser vendida a ricos cidadãos romanos, que queriam com ela decorar as suas casas ou jardins. Provavelmente, estas representam apenas uma pequena amostra do que seria a obra original, sendo preciso usar de alguma imaginação para acedermos a toda a sua grandeza.
O desaparecimento da imensa escultura original grega, deve-se não apenas à acção do tempo, mas essencialmente ao facto do cristianismo vitorioso considerar uma autêntica obra pia a destruição dos ídolos pagãos.
Todos ficamos a perder!

quarta-feira, outubro 26, 2005

Rubens


Rubens, 'São Jorge', 1605-7.
© Museo Nacional del Prado, Madrid.


Rubens (1577-1640) foi dos poucos pintores geniais que gozou, na sua vida, da fama e do sucesso. De facto, Rubens era, na época, um dos pintores mais cobiçados nas cortes europeias.
Vai estar patente uma exposição na National Gallery de Londres versando a obra inicial deste fabuloso pintor do período barroco. A exposição cobre os primeiros anos da sua carreira (entre 1597 a 1614), período em que Rubens absorvia ainda sofregamente as técnicas dos mestres italianos do Renascimento.
Rubens caracterizou-se pelo seu estilo grandioso, pela maestria na composição, pelas cores exuberantes e efeitos de luz.
Uma visita que valerá a pena a quem puder e quiser conhecer o percurso que tornou possível este génio!

domingo, outubro 09, 2005

Mistérios de Leonardo



Será esta mulher Maria Madalena ou Lucrécia? O que está ela a esconder? Até que ponto é que Leonardo participou na elaboração desta obra?
Esta é uma obra atribuída aos alunos de Leonardo. Mas, tal como muitas outras, pode ter várias pinceladas do mestre.
Leonardo é um poço de mistérios que tardam em ser esclarecidos. O recente sucesso do "Código da Vinci" aguçou as atenções e o apetite a um público muito mais vasto pela obra de Leonardo. Daí que a exposição intitulada: "Leonardo. Genio e visione in terra marchigiana" será certamente um êxito e também uma das raras oportunidades de visualizar obras menos conhecidas em que Leonardo tenha, de algum modo, influenciado ou aplicado os seus dotes.

terça-feira, agosto 30, 2005

Bombas sobre Santa Maria del Pilar


Na madrugada de 3 de Agosto de 1936, um avião republicano sobrevoou a cidade de Saragoça, volteando sobre a basílica da Virgem e largando três bombas sobre o templo. Duas atingiram o telhado do edifício e uma outra caiu no pátio. O curioso desta história é que nenhuma delas explodiu, o que foi apontado desde logo como mais um espantoso milagre da Virgem.
As duas bombas que atingiram o edifício ainda hoje estão expostas no seu interior, intrigando todos aqueles que não estão a par do acontecimento.

A explicação mais racional para o facto de nenhuma das bombas ter explodido encontra-se no facto do avião voar a muito baixa altitude e, como tal, a altura não ser suficiente para despoletar o sistema que induz o explosivo.
Seja como for, este é um episódio curioso da Guerra Civil de Espanha.

segunda-feira, agosto 29, 2005

Aonde pára "La Rana"?


Quem visita pela primeira vez Salamanca e não souber da história, pasma quando vê um ror de pessoas especadas a olhar para a porta da Universidade. Apesar do espantoso trabalho de cantaria (autêntica filigrana), não percebemos a insistência e a atenção votadas.
Afinal, o mistério está em descobrir "la Rana" (a Rã). Segundo a lenda, o estudante que a descobrir acaba os seus estudos e casa-se. Se já for casado, pode pedir um desejo que se cumprirá.
Para aqueles estudantes que fiquem aflitos perante esta fachada, fica aqui uma pista para a descoberta:

domingo, agosto 21, 2005

Catedral de Tuy



Já uma vez tinha entrado neste curioso e imponente edifício, mas a visita tinha sido demasiado fugaz. É desde logo curioso, pela mistura de estilos (românico, gótico, renascentista e barroco), pela imponência e majestade que ainda transpira.


O seu portal, já gótico, é magnífico e, desde logo, a nossa vista perde-se aí, na miríade de figuras que podemos contemplar e procurar o significado. Destaque-se, a primeira figura a contar da direita, o rei Afonso IX, patrono do edifício e marido da nossa D.Teresa, a obreira do Lorvão, referida no post anterior.

O interior não é menos fascinante. A pesada estrutura granítica esmaga-nos, tanto mais que algo nos desconcerta ao identificarmos claramente o estilo românico - à semelhaça de Santiago de Compostela, mas de uma dimensão mais próxima de uma Sé Velha ou Sta Cruz de Coimbra - com um remate de abóbada claramente gótico. Como a estrutura original não estava concebida para tamanhas alturas, rapidamente se improvisaram soluções para estabilizar o edifício que ameaçava ruir com o peso da abóbada. À falta dos arcobotantes típicos do gótico, utilizaram-se uns tirantes entre os pilares que suportam a abóbada. Estes foram aplicados ao longo dos séculos, sendo o último do séc. XVIII.

Muito há de interessante para observar, nos altares e capelas interiores. Mostra-se aqui este invulgar Cristo (verde!?) apenas para aguçar o apetite.


O claustro (gótico cisterciense, semelhante ao de Alcobaça) e os jardins do paço episcopal, com excelente vista sobre Valença, são um deleite para os sentidos.

No final, ainda tive um bónus, com um admirável concerto de órgão absolutamente inesperado!

terça-feira, julho 26, 2005

Uma Visita ao Mosteiro do Lorvão


O mosteiro situa-se num vale profundo, rodeado de vegetação, em que, infelizmente, abunda o eucalipto. Em algumas alas do antigo mosteiro, funciona agora o hospital psiquiátrico. Esta nova função não nos passou desapercebida, pois manifestou-se desde logo na recepção, após o estacionamento. Um grupo de pacientes rodeou os automóveis, simulando um auxílio no parqueamento, e pedindo, alguns, a respectiva moedinha; outros, acenavam e cumprimentavam de forma infantil as crianças.
Todo o edifício respira o último período áureo que viveu no séc. XVIII, com o barroco a mostrar ainda o seu esplendor. Das épocas mais recuadas, já poucos vestígios sobram.


Numa pequena dependência, junto à cabeceira, funciona um pequeno museu com os despojos daquilo que outrora terá sido um riquíssimo espólio. Todavia, o pouco que resta, da escultura, pintura, paramentos e outros objectos da vida monacal não deixa de ser interessante.

Felizmente, existe um guia - que debita de um fôlego aquilo que lhe ensinaram - a elucidar-nos sobre a história de cada objecto, ou obra de arte. Após a visita do pequeno museu, vamos para o interior da igreja propriamente dita. Aqui, somos levados a ver os túmulos da rainha desquitada D. Teresa, filha de Sancho I e casada alguns anos com Afonso IX de Castela. Esta foi a grande responsável pela transformação do mosteiro - para acolher freiras, em vez de frades, no séc. XIII. De beneditino, passou a reger-se pela ordem de Cister, sendo o primeiro feminino desta ordem em Portugal. Do outro lado, temos o túmulo da irmã, D. Sancha, fundadora do mosteiro de Celas, em Coimbra.
O local do órgão está vazio, devido ao restauro do instrumento. Sobressai, por detrás da grade que separava as freiras dos vulgares fiéis, o imponente cadeiral de madeiras nobres, do qual infelizmente se perdeu alguma parte, num incêndio que lavrou não há muitos anos.


Finalmente, pudemos ver o claustro de traça renascentista.

Saídos do mosteiro, após dar uma merecida gorjeta ao guia, fomos provar os doces conventuais na pastelaria em frente. Este é dos poucos exemplos de vitalidade nesta terra, que parece ter acompanhado de perto a decrepitude do seu mosteiro. Muitas das casas, que algum dia foram majestosas, encontram-se votadas a um abandono confrangedor.