quarta-feira, fevereiro 11, 2004

Sonhar acordado


Contrariamente à maioria dos comuns mortais, sempre adorei fazer grandes viagens de autocarro ou comboio. Recordo com imensa saudade as intermináveis viagens que fazia para a Universidade de Coimbra, não pela paisagem que poderia apreciar, mas pela disponibilidade para sonhar acordado, sem pressas, sem qualquer necessidade premente de chegar ao destino.
Este sentimento, que julgava quase único, o que me levava a disfarçar tão insólito gosto, afinal está magnificamente descrito por Fernando Pessoa.

Devaneio entre Cascais e Lisboa. Fui pagar a Cascais uma contribuição do patrão Vasques, de uma casa que tem no Estoril. Gozei antecipadamente o prazer de ir, uma hora para lá, uma hora para cá, vendo os aspectos sempre vários do grande rio e da sua foz atlântica. Na verdade, ao ir, perdi-me em meditações abstractas, vendo sem ver as paisagens aquáticas que me alegrava ir ver, e ao voltar perdi-me na fixação destas sensações. Não seria capaz de descrever o mais pequeno pormenor da viagem, o mais pequeno trecho de visível.

Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego

domingo, fevereiro 08, 2004

Cintilações...




Albert André, com as suas mais de 3500 obras, foi aquilo a que se pode chamar um artista prolixo e competente.
Amigo de Cézanne e Renoir, nunca conseguiu atingir o estatuto e o reconhecimento que estes tiveram.
Apesar de tudo, na sua imensa obra, temos alguns momentos de génio, como neste “Femme mettant ses bas”, pintado em finais do século XIX.

sexta-feira, fevereiro 06, 2004

Restrições...




A exibição de um seio, por parte da cantora Janet Jackson, no intervalo do “Superbowl” provocou uma onda de indignação a alguns telespectadores mais sensíveis.
Esta reacção motivou, por parte das cadeias de televisão, uma onda de filtragem de directos para evitar surpresas futuras. Já nada escapa à “censura” televisiva, neste fervor anti-seio...
A sociedade americana é o exemplo mais acabado e grosseiro da hipocrisia como forma de estar na vida. Sempre me intrigou isso, mas não encontro qualquer explicação plausível para o fenómeno!?

domingo, fevereiro 01, 2004

Inanidades




Interrogo-me como é que uma inanidade do género “XXX - Missão Radical” foi alardeada como filme do mês nos canais Lusomundo?

sábado, janeiro 31, 2004

quinta-feira, janeiro 29, 2004

Contra a morbidez


O Paulo Gorjão do “Bloguítica” andou à procura de blogues que expressassem a sua indignação pela morbidez demonstrada com a morte de Fehér.

Pela lista que lá encontrei, fiquei contente em saber que não estou sozinho...

quarta-feira, janeiro 28, 2004

Opportunity




Todos os dias visito religiosamente o site da NASA para saber das últimas dos nossos(?) robots que exploram Marte.
As imagens que nos chegam são espantosas. É nestas ocasiões que dou graças por dispor deste fenomenal meio de informação que é a Internet.
As notícias são animadoras. O 'Spirit' está a recuperar aos poucos da sua avaria, que se julga agora ser apenas de software, e o 'Opportunity' pousou numa cratera, ouro sobre azul do ponto de vista da investigação geológica.

terça-feira, janeiro 27, 2004

Fascínio mórbido


Estava eu no Domingo a ver a liturgia habitual do professor Marcelo, quando, já no estertor final do programa, o jornalista interrompe o Professor para anunciar que algo de grave tinha acontecido a um jogador do Benfica, cujo nome “Fehér” não me dizia rigorosamente nada, pois normalmente não acompanho o futebol.
Não tendo acompanhado mais qualquer informação nesse dia, deitei-me apenas com esse facto. De manhã, acordei com a notícia que o jogador do Benfica tinha falecido. Liguei a televisão para assistir a imagens do sucedido. Esta não me decepcionou, no jornal da manhã, passou várias vezes os últimos momentos do jogador.
Confesso que estas imagens me provocaram bastante comoção. Apesar de desconhecer em absoluto o jogador, impressionou-me a sua figura, a sua juventude e a sua aparente bonomia e simpatia desaparecer quase instantaneamente, por obra e graça sabe-se lá do quê.
Considerei normal que esse fosse o assunto do dia.
Porém, já estranhei o directo de pelo menos duas estações televisivas que mantiveram no ar a emissão durante horas à espera que o corpo chegasse de Guimarães a Lisboa.
Hoje fiquei aterrado quando quase às 14:30, no Jornal da Uma da RTP, depois de uma hora e meia de emissão, ainda não se tinha mudado de assunto, como se mais mundo não existisse, nem mais houvesse para noticiar!? E à custa de quê se mantinha a emissão: saber que as equipas do Boavista, do Belenenses, Vitória de Setubal, etc, tinham passado pela câmara ardente, que a fila de pessoas atingia duzentos e tal metros..., o Presidente do Sporting tinha abraçado o Presidente do Benfica, que este último tinha prometido que mais ninguém iria usar o mesmo número da camisola do jogador, etc, etc... Ou seja, notícias de coisa nenhuma!
Apenas se procura alimentar até à náusea uma dor colectiva, explorando, como vem sendo habitual, o gosto pela morbidez do nosso povinho.

Aonde pára o bom-senso mais elementar?

segunda-feira, janeiro 26, 2004

Yes, Symphonic Live


O ser humano é, por natureza, nostálgico. Todos nós, de uma forma ou de outra, recordamos momentos que consideramos dourados. Épocas em que as nossas vidas e o nosso pulsar batia ao som e ao ritmo de determinado grupo musical, realizador, escritor, etc.
Estes momentos, que nos marcam sobretudo a adolescência, teimam em manter-se vivos na nossa memória e persistem tanto mais dourados quanto mais inatingíveis ou irrepetíveis.
Aqueles a que por vezes conseguimos regressar, revelam-se na maioria dos casos decepcionantes, uma pálida sombra do passado. O que nos fazia vibrar revela-se sem graça e perfeitamente datado. Contudo, felizmente, nem sempre é assim.
Foi num impulso 'revivalista' que adquiri o DVD, posto à venda com o Diário de Notícias, “Yes Symphonic Live”. Os Yes, os King Crimson, os Genesis, os Gentle Giant eram aqueles grupos que nos anos 70 me faziam percorrer mais de uma centena de Km, para comprar álbuns importados, já que o mercado nacional era pobre e muita coisa não era editada ou reeditada. Muitas tardes passei, quase religiosamente, a ouvir vezes sem conta estes agora gastos e velhos discos.
Foi com algum temor que coloquei o DVD a funcionar, afinal corria o risco de matar essa vivência. Mas, foi com surpresa que, sem vibrar como outrora, revi com agrado os meus velhos heróis. Estes, tal como eu, já deixaram a juventude para trás, mas ainda se respira e se ouve, com alguns ressaibos de misticismo, este Rock sinfónico ou progressivo, complexo e distante da melodia fácil que tanto contestávamos na altura.

Um prazer! Recomendo a quem passou pelo mesmo :)

domingo, janeiro 25, 2004

Matina


Lá longe, como um eco dos vales que daqui avisto, repicam os sinos, clamando pelo povo para assistir à missa...